Artigo
Uma nova classe de remédios para insônia está chegando ao Brasil: o que são as DORAs
- por Dr. Michel Haddad
- Psiquiatria
- 06/11/2026
A insônia crônica afeta cerca de 15% dos adultos brasileiros. Nos últimos dez anos, o consumo de zolpidem, a medicação mais prescrita para dormir no país, triplicou. Esse crescimento fala menos sobre uma epidemia de insônia e mais sobre a ausência de alternativas farmacológicas com perfil de segurança realmente favorável para uso prolongado. Até agora, o arsenal tem se resumido a benzodiazepínicos, drogas Z (como zolpidem, zopiclona e eszopiclona) e algumas opções off-label, como antidepressivos sedativos e antipsicóticos atípicos em dose baixa. Todas essas classes compartilham um mesmo problema estrutural: foram desenvolvidas para outra finalidade ou agem de forma inespecífica sobre o cérebro inteiro.
A novidade que chega ao mercado brasileiro na virada de 2026 para 2027 muda esse cenário. Pela primeira vez em décadas, teremos uma classe de hipnóticos desenhada especificamente para o circuito neural que controla o estado de vigília, e não para a sedação generalizada do sistema nervoso central.
O que são as DORAs
DORA é a sigla para Dual Orexin Receptor Antagonist, ou antagonista duplo dos receptores de orexina. A orexina, também chamada de hipocretina, é um neuropeptídeo descoberto no final da década de 1990 e identificado como o principal mantenedor do estado de alerta no cérebro humano. Quando os neurônios produtores de orexina, concentrados no hipotálamo lateral, disparam, o indivíduo permanece acordado, atento e com o tônus muscular preservado. Quando esses neurônios silenciam, o sono acontece de forma fisiológica.
A descoberta de que a narcolepsia tipo 1, uma doença caracterizada por sono excessivo e cataplexia, é causada justamente pela perda dos neurônios orexinérgicos abriu uma janela terapêutica inédita. Se a falta de orexina provoca sono, bloquear farmacologicamente seus receptores deveria induzir sono de maneira seletiva, sem precisar sedar o resto do cérebro. É exatamente o que as DORAs fazem.
A diferença prática em relação às classes antigas é importante. Benzodiazepínicos e drogas Z potencializam o neurotransmissor GABA, o principal freio do sistema nervoso central. O efeito é potente, mas inespecífico: além de induzir sono, também reduzem ansiedade, relaxam a musculatura, prejudicam a memória e a coordenação, e podem comprometer a respiração durante a noite. As DORAs, ao antagonizar os receptores OX1 e OX2 da orexina, atuam apenas sobre o circuito da vigília. O resto do cérebro continua operando com seu funcionamento habitual.
O que está chegando ao Brasil
Duas moléculas da classe têm previsão concreta de lançamento no mercado brasileiro. O lemborexante recebeu registro da ANVISA em setembro de 2025. A previsão de chegada às farmácias é entre o fim de 2026 e o início de 2027. O daridorexante teve seu dossiê submetido à ANVISA em janeiro de 2026 e deve ser lançado ao longo de 2027. Uma terceira DORA, o suvorexante, já disponível nos Estados Unidos desde 2014, não tem previsão de chegada ao Brasil até o momento.
Para quem a classe faz mais sentido
Nem todo paciente com insônia precisará trocar o tratamento atual pelas DORAs. A classe é especialmente atrativa para três perfis específicos.
O primeiro é o paciente com insônia crônica e fator de risco para dependência: idosos, pessoas com histórico de uso abusivo de substâncias, pacientes em polifarmácia ou aqueles que já apresentaram tolerância a benzodiazepínicos ou drogas Z. Nesses contextos, a ausência de ação GABAérgica e o perfil de menor rebote na descontinuação são diferenciais clínicos relevantes.
O segundo é o paciente com comorbidade respiratória leve, como apneia obstrutiva do sono em grau leve ou DPOC estável, em quem benzodiazepínicos e drogas Z são classicamente evitados por piorarem a saturação de oxigênio durante o sono. As DORAs mostraram, em ensaios clínicos, não comprometer significativamente parâmetros respiratórios noturnos nesses pacientes.
O terceiro é o paciente que simplesmente não responde ou não tolera as opções atuais. Insônia crônica refratária, com todas as medidas de higiene do sono já aplicadas, terapia cognitivo-comportamental para insônia tentada, e falha com pelo menos uma classe hipnótica tradicional, é um cenário onde experimentar um mecanismo de ação diferente faz sentido clínico.
Cuidados e limitações
Nenhuma classe farmacológica nova chega sem limitações. As DORAs serão comercializadas no Brasil como medicamentos de controle especial, categoria B1, com receita retida e controle semelhante aos benzodiazepínicos.
Interações medicamentosas merecem atenção. A metabolização depende do citocromo CYP3A4 hepático, e o uso concomitante com inibidores fortes dessa enzima, como alguns antifúngicos, antirretrovirais e certos antidepressivos, exige ajuste de dose. Pacientes com insuficiência hepática grave devem evitar a classe, e há contraindicação formal em narcolepsia, já que o mecanismo de ação é justamente o oposto do necessário nesses casos. Os dados de uso superior a doze meses ainda são relativamente limitados, e o acompanhamento pós-comercialização será importante para refinar o perfil de segurança em uso crônico.
E vale uma observação clínica importante: medicamento algum resolve insônia crônica se a causa não for investigada e tratada. Transtornos de humor, ansiedade, apneia do sono, uso de substâncias, distúrbios circadianos, condições médicas gerais e hábitos de vida inadequados são determinantes subjacentes frequentes. As DORAs são mais uma ferramenta, não uma solução universal.
Perspectiva
A chegada das DORAs ao Brasil é um avanço real. Pela primeira vez, teremos um hipnótico com mecanismo fisiológico, perfil de dependência substancialmente menor do que o das classes atuais e dados de segurança respiratória favoráveis. Para o paciente certo, essa classe representa uma mudança importante no que podemos oferecer.
Ao mesmo tempo, continuará valendo o princípio básico do tratamento da insônia: a avaliação diagnóstica cuidadosa, a identificação da causa quando ela existe, a priorização de medidas não farmacológicas sempre que possível e a prescrição individualizada. As DORAs vão se somar ao arsenal, não substituí-lo.
Referências:
Mignot E, et al. Safety and efficacy of daridorexant in patients with insomnia disorder: results from two multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trials. Lancet Neurol. 2022;21(2):125-139.
Rosenberg R, et al. Comparison of lemborexant with placebo and zolpidem tartrate extended release for the treatment of older adults with insomnia disorder: a phase 3 randomized clinical trial. JAMA Netw Open. 2019;2(12):e1918254.
Muehlan C, et al. Pharmacokinetics and pharmacodynamics of the dual orexin receptor antagonist daridorexant. Br J Clin Pharmacol. 2022;88(9):4020-4029.
Dr. Michel Haddad é psiquiatra, chefe da Seção de Psiquiatria do HSPE/Iamspe e responsável técnico da Fluture Saúde Mental, em Moema. CRM-SP 145096 · RQE 51.131.
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